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sábado, 20 de janeiro de 2018

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou” Hb 3.3

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

Explicando o capítulo 3

O capítulo 3 de Hebreus está na seção que aborda a supremacia do Filho de Deus: 1.4—4.13. Essa parte da carta demarca a supremacia de Jesus em relação a Moisés, o legislador de Israel. Diferentemente de Moisés, que serviu a uma casa, que “não era o tabernáculo, mas os da casa de Deus, ou o povo de Deus como a comunidade da fé” (Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, p.1557), Jesus Cristo é o construtor dessa casa de Deus, enquanto o legislador de Israel fazia parte dela.

Podemos retomar essa abordagem no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, e no versículo 18: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Atenção para o verbo “edificarei” e o pronome possessivo “minha”. É Cristo quem construiu, edificou e ergueu o povo de Deus, por isso, esse povo pertence a Ele; diferentemente de Moisés, que embora fosse uma figura proeminente entre os judeus, um líder exemplar, ele não edificou o povo de Deus, mas se achou parte dele.

Portanto, o escritor de Hebreus faz um apelo aos leitores de sua carta, que diferentemente dos judeus do deserto que não atentaram para as palavras de Moisés, os seguidores de Cristo atentem para o mandamento do Filho, o edificador do povo de Deus, e não se deixem endurecer pelo engano do pecado. Revista Ensinador Cristão nº73

Leitura Bíblica - Hebreus 3.1-19

Cristo em tudo foi superior a Moisés na Casa de Deus, pois enquanto o legislador hebreu foi um mordomo, o Salvador foi o dono.



Comentário de Hebreus 3.1-19

Neste capítulo, o autor de Hebreus faz um contraste entre Jesus e Moisés. O objetivo é chamar a atenção dos leitores para a importância e a urgência da mensagem cristã. Moisés era lembrado e reverenciado não apenas por ter sido um grande legislador hebreu, mas também como um servo que se sacrificou em prol do seu povo. Ele foi um bom mordomo na casa de Deus. No Antigo Testamento, o povo de Israel era considerado a família de Deus e foi por essa famí­lia que Moisés sacrificou-se. Mas o que representava os esforços de Moisés, que era um simples servo na casa de Deus, diante de Jesus, o bendito Filho de Deus, que voluntariamente deu sua própria vida em resgate do mundo?

Como aconteceu na trajetória do êxodo, os cristãos hebreus estavam repetindo os mesmos erros cometidos pelos seus antepassados. Cari B. Gibbs destaca que

"muitos dos leitores da Epístola aos Hebreus estavam em perigo de rejeitar a Cristo e voltar ao judaísmo. Sabendo disso, o autor que conhecia a história de Moisés muito bem fez uma comparação entre a decisão tomada no tempo de Moisés e uma decisão atual. Quis ele despertar a atenção dos seus leitores para o fato de que assim como os filhos de Israel se revelaram contra Moisés, decidindo por voltar para o Egito, a mesma coisa estaria acontecendo com os cristãos hebreus que estavam na iminência de abandonar a Cristo e voltar ao seu antigo modo de vida (Hb 2.15). Assim como os israelitas tiveram que peregrinar durante penosos quarenta anos, como paga da sua desobediência, os hebreus cristãos estavam correndo o perigo de serem cortados da videira verdadeira (Jesus Cristo) e serem lançados no fogo da perdição eterna”.1

"Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (v. 1). Tendo chegado à conclusão de seus argumentos no final do capitulo 2 de sua epístola, o autor dirige-se a seus leitores chamando-os de "irmãos santos". Os lexicógrafos Liddel e Scott destacam que, no grego clássico, esse vocábulo (santos, gr. hágios) possuía o sentido de algo devotado à divindade e era traduzido como sagrado, santo. Era usado tanto em relação a coisas quanto a pessoas. Quando usado em referência a pessoas, possuía o sentido de santo, puro.2  No contexto do Novo Testamento, a palavra "santos” tem o sentido de algo ou alguém que foi separado para servir exclusivamente a Deus. Não pode ser usado ou estar a serviço de outra coisa. Essa santificação possui dois aspectos. Ela pode ser posicionai, aquilo que, no Novo Testamento, é descrito como "estar em Cristo” (2 Co 5.17), e também progressiva, identificando aqueles que receberam Cristo como Salvador e, a partir daí, passam a andar nEle (Cl 2.6). Na carta aos Hebreus, aparecem ambos os sentidos.

Os crentes são exortados e lembrados que são participantes da vocação celestial. A palavra vocação traduz o termo grego klesis, que ocorre 11 vezes no Novo Testamento grego. Uma dessas ocorrências aparece na primeira carta de Pedro 1.10 com o sentido de chamada, vocação, e é usado em conjunto com ekloge, termo traduzido como eleição. "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação [klesis] e eleição [ekloge]', porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis". Fomos chamados a participar da eleição em Cristo Jesus. Fomos eleitos em Cristo e, enquanto permanecermos nEle, estaremos seguros. Somos exortados a ser fiéis a esse chamado, tendo sempre em mente que a necessidade de vigilância deve estar sempre presente para evitar o decair da fé.

O autor destaca que Jesus Cristo é o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão. O apóstolo era alguém enviado em uma missão, enquanto o sacerdote atuava como um representante dos homens diante de Deus. Jesus exerceu essas funções mais do que qualquer outra pessoa do antigo pacto. Na sua missão salvífica, Ele foi constituído por Deus como o grande Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa salvação. A palavra “confissão” (gr. homologia) significa, também, concordância. Aqui, é usado no sentido da profissão de fé, isto é, a fé cristã abraçada pelos crentes hebreus.3  John Wesley (170 3-1791) traduziu a palavra apóstolo aqui como “o mensageiro de Deus, que pleiteia a causa de Deus conosco”, e o sumo sacerdote como aquele que "defende nossa causa com Deus”. Wesley lembra que ambos estão contidos na palavra “mediador" e que o autor "compara Cristo, o Apóstolo, com Moisés; e o Sacerdote, com Arão. Ambos os ofícios que Moisés e Arão exerciam, e Cristo carregou-os juntos e de forma muito mais eficaz".4

“Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” (v. 2). O versículo 2 é uma referência a Números 12.7. Nesse contexto, o termo "casa" também significa família e é aplicada em relação ao povo de Deus na antiga aliança. O autor lembra que Moisés foi um mordomo fiel na casa de Deus durante a peregrinação no deserto e usa essa metáfora como uma analogia da missão de Jesus, o Filho de Deus. Jesus, assim como Moisés, também foi fiel sobre a casa de Deus — a Igreja — , mas as semelhanças entre Jesus e Moisés param por aí porque Jesus em tudo é superior ao grande legislador hebreu.

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou" (v. 3). Adam Clarke destaca que

"não há dúvida de que um homem que constrói uma casa para sua comodidade é mais honrável que a casa mesma; mas a casa aqui se refere à Igreja de Deus. Essa igreja, aqui denominada casa, ou "família", está edificada por Cristo; portanto, Ele deve ser maior que Moisés, que era somente um membro e oficial dessa igreja”.5

"Porque toda casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” (v. 4). Tomando o termo “casa" com o sinônimo de "família", o autor mostra que o homem, na sua função gregária, constrói famílias, comunidades, etc., mas, na verdade, Deus que é o cabeça de toda a raça.

“E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” (v. 5). O autor novamente volta à figura de Moisés. O argumento do autor é simples e objetivo: Moisés foi um servo dedicado na casa de Deus. Ele procurou seguir com diligência e fazer com que o povo seguisse as diretrizes da Lei de Deus. Todavia, Moisés era um coadjuvante onde Jesus seria o ator principal. Moisés era uma sombra, Jesus é a realidade. O versículo 6 mostra a Igreja como a casa de Deus hoje.

"Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim ” (v. 6). Esse versículo é paralelo a 1Tm 3.15: “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. A Igreja de Deus não é um prédio nem qualquer estrutura arquitetônica, mas, sim, o povo comprado com o sangue de Jesus Cristo. Quem faz parte da Igreja precisa demonstrar confiança a fim de poder ter esperança até o fim. O autor tem seu foco no futuro e, ao usar os termos parresia (confiança) e elpis (esperança), ele quer chamar a atenção para esse fato. Ele vê a vida cristã dentro de um contexto escatológico, não imediatista. Donald A. Hegner comenta que

“a palavra confiança (parresia) ocorre quatro vezes em Hebreus, duas vezes em referência ao culto (4.16; 10.19) e outras duas vezes quanto ao modo de enfrentar as dificuldades na vida (aqui e em 10.35). A palavra esperança (elpis) expressa a expectativa futura do autor em contraste com a ‘escatologia realizada’ em Cristo. Aqui, assim como em outras passagens do Novo Testamento, a palavra tem conotações de ‘expectativa confiante’”.6

"Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz” (v. 7). O versículo 7 introduz uma citação do Salmo 95.7. O autor toma essas palavras do salmista não apenas como uma advertência para os dias passados, mas também para os seus dias. Isso só era possível graças à inspiração do Espírito Santo sobre as letras sagradas. O autor não queria que aquilo que aconteceu com a geração do êxodo fosse repetido com seus leitores.

“Não endureçais o vosso coração, como na provocação, no dia da tentação no deserto” (v. 8). Charles F. Pfeiffer destaca que “ainda que Moisés tenha sido fiel a Deus, a geração da qual ele formava parte pereceu no deserto. Esse fato serviu como advertência à geração que escutou o evangelho de Cristo e esteve em perigo de rejeitá-lo”.7  O autor de Hebreus mostra claramente nesse texto que é a própria pessoa que endurece (gr. sklerynÔ) o seu coração. Essa mesma palavra ocorre em Romanos 9.18, dizendo que Deus “endurece a quem quer". Esse texto de Romanos 9.18, juntamente com o da carta aos Hebreus, forma um paralelo com os textos de Atos 19.9 e 7.51, onde os judeus “endureceram” seus corações para não aceitar a Palavra de Deus. Em ambos os textos, a palavra "endurecer" procede da mesma raiz grega skleros (endurecer), que, por sua vez, dá origem à palavra portuguesa esclerose. O contexto deixa claro que Deus só endurece quem já está endurecido. Noutras palavras, quem resiste à sua Palavra será endurecido por ela.

"Onde vossos pais me tentaram, me provaram e viram, por quarenta anos, as minhas obras” (v. 9). O versículo 9 explica as razões desse endurecimento. O autor tem em mente a rota do êxodo, que cobriu um período de 40 anos. Nessa trajetória, os israelitas presenciaram milagres, sinais e maravilhas, mas não se sentiram convencidos por eles. A tradução do expositor Philip Edgcum be Hughes (1915-1990) expressa melhor o sentido do texto: “fui provocado durante quarenta anos”.8  Essa provocação produziu endurecimento, e a desobediência contumaz provocou a ira de Deus.

"Por isso, me indignei contra esta geração e disse: Estes sempre erram em seu coração e não conheceram os meus caminhos” (v. 10). Como foi mostrado, essa desobediência repetitiva provocou a ira divina. A consequência dessa desobediência e rebeldia foi a privação de entrarem na Terra Prometida.

“Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso” (v. 11). O autor faz um paralelo entre a desobediência dos antigos hebreus com aqueles seus dias. Adam Clarke destacou com muita propriedade:

“Os desobedientes israelitas sirvam de advertência; foram resgatados do cativeiro e tiveram a mais completa promessa de uma terra de prosperidade e descanso. Por causa da desobediência, não a obtiveram e caíram no deserto. Vocês foram resgatados da escravidão do pecado e tem a mais benévola esperança de herança entre os santos na luz. Pela incredulidade e desobediência, eles perderam o seu descanso; pelas mesmas coisas vocês também podem perdê-lo”.9

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo" (v. 12). A advertência é intensificada pela exortação do autor. Mais uma vez, ele lembra que a falta de vigilância somada com a negligência e desobediência pode conduzir ao fracasso espiritual. Ele adverte-os do perigo de apostatar e cair da fé.10  Grant R. Osborne destaca que, no versículo 12, o autor começa com o verbo grego blepete (“tome cuidado, cuide-se”), que, no Novo Testamento, é usado para dar o grito de alerta sobre a vigilância e obediência espiritual. Uma chamada à obediência aos mandamentos de Deus. Nesse contexto negativo, também significa “cuidado" com o mesmo coração “mal” e incrédulo que Israel mostrou no deserto. Ele observa que incredulidade e endurecimento são sinônimos aqui.

"No versículo 12, é um genitivo descritivo que significa um ‘coração incrédulo’ que se torna “mal" (poneria) ou cheio de iniquidade (v. 12,19), que é interpretado como 'seus corações estão sempre errados’ no versículo 10b. Essa incredulidade também os leva a se afastarem do Deus vivo’ (en to aposténai apo Theou zontos), estendendo a imagem até eles não conheceram os meus caminhos' no versículo 10b. Esse é o cerne da questão, preparando-se para o pleno uso dessa imagem da apostasia em Hb 6.6 (onde será discutido mais detalhadamente)”.11

Osborne ainda observa que esse é um caminhar da incredulidade, do mal, da queda, e que isso é, obviamente, um aviso sério, com consequências terríveis.12

O termo grego aposténai (apartar), usado aqui em Hebreus 3.12, é o infinitivo aoristo do verbo aphistemi, que ocorre 14 vezes no Novo Testamento grego, significando: cair, deixar, afastar.13  É desse verbo que se origina a palavra apostasia. A apostasia é definida como "a rejeição deliberada de Cristo e de seus ensinamentos por parte de um cristão (Hb 10.26-29; Jo 15.22)”.14

A Bíblia de Estudo Harper Collins destaca que

“a admoestação para ser cuidadoso (ver também 12.25) é comum no NT. Para o perigo de desviar-se, ou apostatar, veja Nm 14.9, que trata da geração do deserto, e Mt 24.10-12. Um jogo de palavras gregas ligando o desviar-se (apostenai) e o coração incrédulo (apistias)".15

Como ficará demonstrado posteriormente, há uma relação da queda da fé aqui retratada com aquela sobre a qual o autor voltará a tratar no capítulo 6.4-6.

Adam Clarke observa oportunamente que a nossa participação na glória depende de nossa firmeza na fé até o final de nossa carreira cristã.16  Jesus alertou que as coisas más procedem de dentro do coração do homem: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15.19). É por isso que os cristãos necessitam de vigilância e também de estimular uns aos outros.

“Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (v. 13). Aqui, o sentido do texto é o de que os cristãos não permitam que seus corações sejam seduzidos pelo pecado. O autor usa o termo grego parakaleo, isto é, chamar à parte para consolar, para se referir à necessidade do encorajamento contínuo. William Barclay (1907-1978) observa que esse mesmo termo era usado por um militar para estimular as suas tropas.17  Joseph Benson observa que alguns passos devem ser tomados para se pôr em prática as palavras do autor de hebreus:

(1) Uma profunda preocupação com a salvação de cada um e o crescimento na graça;

(2) Sabedoria e entendimento sobre as coisas divinas;

(3) Cuidado para que somente palavras de verdade e sobriedade sejam ditas, pois somente essas palavras serão recebidas como tendo autoridade e alcançarão os fins desejados;

(4) Evitar aquelas expressões rudes e severas que expressam indelicadeza; em vez disso, usar palavras com brandura, compaixão, ternura e amor, pelo menos para aqueles que estão dispostos a reconhecer a vontade de Deus;

(5) Evitar falar com leviandade e sempre falar com seriedade;

(6) Prestar atenção ao tempo, lugar, pessoas e ocasiões;

(7) Ser exemplo para as pessoas exortadas;

(8) Devemos ser incansáveis nesse dever e exortar um ao outro diariamente. Não somente em reuniões feitas para isso, mas também em todo e qualquer lugar sempre que estivermos em companhia um do outro.18

Essas exortações tomam-se relevantes porque, para o autor, o cristão tornou-se um participante de Cristo.

“Porque nos tomamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim ” (v. 14). O termo grego gnomai, de onde deriva gegonamen, usado aqui pelo autor, ocorre 661 vezes no Novo Testamento grego. Aqui nesse texto, ele encontra-se no tempo perfeito, e o seu sentido é que os cristãos tornaram-se participantes de Cristo no passado (quando o receberam como Salvador) e continuavam no presente tempo como participantes dEle. Isso, no entanto, só teria valor se eles continuassem firmados em Cristo até o fim.19  O autor repete a exortação anteriormente lembrada por ele no versículo 8.

"Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como na provocação" (v. 15). Samuel Pérez Millos observa que

"com toda probabilidade, como se disse antes, na mente do salmista (SI 95.7) estava o sucesso ocorrido em Cades-Barneia, onde o povo não creu que Deus havia-o enviado para ocupar Canaã, duvidando de seu poder para dar-lhes vitória sobre os povos que ocupavam a terra (Nm 14.1ss). Deus estabeleceu uma ação judicial sobre o povo rebelde, de modo que nenhum dos homens maiores de 20 anos entrariam na terra por haverem murmurado contra Deus (Nm 14.27,29). A advertência é solene, já que Deus pode aplicar aos crentes rebeldes uma disciplina similar a que aplicou aos israelitas que não quiseram obedecer a sua voz".20

"Porque, havendo-a alguns ouvido, o provocaram; mas não todos os que saíram do Egito por meio de Moisés" (v. 16). O versículo 16 distingue os desobedientes dos obedientes. O livro de Números narra que, quando chegou ao Sinai, Moisés precisou fazer a contagem dos israelitas de 20 anos de idade para cima (Nm 1.1 -3). Os dados, não incluindo os levitas, chegaram a 603.550 homens (Nm 1.46). O versículo 17 mostra que esses homens, excetuando Calebe e Josué, estavam incluídos na maldição de Deus, que os privava de entrar na Terra Prometida (Nm 14.29,30).

“Mas com quem se indignou por quarenta anos? Não foi, porventura, com os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?" (v. 17). Essa geração peregrinou pelo deserto até ser consumida (Nm 14.33,34).

“E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram desobedientes?" (v. 18). Quando essa geração chegou à fronteira da Terra Prometida, Moisés novamente fez a recontagem do povo (Nm 26.1,2,63). Fritz Laubach observa que ali foi colocado o ponto final nessa triste história do povo de Deus, concluída pelas palavras do cronista sagrado: "E entre estes nenhum houve dos que foram contados por Moisés e Arão, o sacerdote, quando contaram aos filhos de Israel no deserto do Sinai. Porque o Senhor dissera deles que certamente morreriam no deserto; e nenhum deles ficou, senão Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num" (Nm 26.64,65).21

"E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (v. 19). A advertência encerra-se neste capítulo com as palavras desse versículo. O autor mostra o perigo da desobediência e rebelião contra Deus. Se não puderam entrar na Terra Prometida, no descanso que Deus preparou, a culpa não era do Senhor. Os cristãos hebreus deveriam tomar isso definitivamente como exemplo — o pecado pode, sim, impedir o cristão de entrar no repouso de Deus. Adam Clarke destaca que não foi um decreto de Deus que os impediu; não foi porque lhes faltavam as forças para fazê-lo; não foi porque lhes faltou o conselho divino instruindo-os como deveriam fazer. Tudo isso eles tinham em abundância; pelo que escolheram pecar e não crer. A incredulidade produz desobediência, e essa, por sua vez, dureza de coração e cegueira mental; tudo isso lhes atraiu o juízo de Deus, e a ira caiu sobre todos eles até o último.


A possibilidade de não chegar ao fim da caminhada
“O livro de Hebreus considera a possibilidade de permanecer firme na fé ou de abandoná-la como uma escolha real, que deve ser feita por cada um dos leitores; o autor ilustra as consequências da segunda opção referindo-se à destruição dos hebreus rebeldes no deserto após sua gloriosa libertação do Egito”. Leia mais em Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, pp.1557-59.

Subsídio Bibliológico
SE OUVIRDES HOJE A SUA VOZ
Citando Salmos 95.7-11, o escritor se refere à desobediência de Israel no deserto, depois do êxodo do Egito, como advertência aos crentes sob o novo concerto. Porque os israelitas deixaram de resistir ao pecado e de permanecer leais a Deus, foram impedidos de entrar na Terra Prometida (ver Nm 14.29-43; Sl 95.7-10). Semelhantemente, os crentes do Novo Testamento devem reconhecer que eles, também, podem ficar fora do repouso divino, se forem desobedientes e deixarem que seus corações se endureçam.
NÃO ENDUREÇAIS O VOSSO CORAÇÃO
O Espírito Santo fala conosco a respeito do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11; Rm 8.11-14; Gl 5.16-25). Se formos indiferentes à sua voz, nossos corações se tornarão cada vez mais duros e rebeldes a ponto de se tornarem insensíveis à Palavra de Deus ou aos apelos do Espírito Santo (v.7). A verdade e o viver em retidão já não serão prioridades nossas. Cada vez mais, buscaremos prazer nos caminhos do mundo e não nos caminhos de Deus (v.10). O Espírito Santo nos adverte que Deus não continuará a insistir conosco indefinidamente se endurecermos os nossos corações por rebeldia (vv.7-11; Gn 6.3). Existe um ponto do qual não há retorno (vv.10,11; 6.6; 10.26)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. RJ: CPAD, 1995, p.1902).


Ao mostrar a superioridade de Jesus sobre Moisés, o autor da Carta aos Hebreus não tencionava exaltar o primeiro e desprezar o segundo, mas pôr em relevo a obra do Calvário, bem como esclarecer como os crentes devem valorizá-la. Ora, se Moisés que não era divino, que não se deu sacrificalmente em lugar de ninguém, merecia ser ouvido, então por que Jesus, o Filho do Deus bendito, Senhor da Igreja e superior aos anjos, não merecia reconhecimento ainda maior?


Notas
1 GIBBS, Cari B. O Livro de Hebreus - a supremacia de Cristo. Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), Campinas, SP.
2 LIDDELL, H.G & SCOTT, R. Greek - English Lexicon - with a Revised Supplment. Claredon Press, Oxford. Inglaterra, Reino Unido 1996.
3 Esse termo está muito em voga hoje nos círculos da Teologia da Prosperidade. Dentro desse modismo evangélico, significa “confessar”, “afirmar" e "determinar” algo com o sentido de tomar posse dele. Nesse sentido, ganhou apenas uma conotação consumista e mercantilista. Trata-se de uma distorção do sentido original, que era o de uma afirmação daquilo que estava em consonância com a Palavra de Deus, e não com caprichos pessoais.
4 WESLEY, John. Hebrews - Explanatory notes and Commentary. Bristol-HotWells, Januaiy, Inglaterra, 1754.
5 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de La Santa Bíbia, tomo III, Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, EUA.
6 HEGNER, Donald A. Hebreus- Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Editora Vida, São Paulo.
7 PFEIFFER, Charles F. Hebreos - Comentário Biblico Portavoz. Editorial PortaVoz, Grand Rapids, Michigan, EUA.
8 HUGHES, Philip Edgcumb. A Commentary on the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, Eerdmans, EUA, 1977.
9 CLARKE, Adam. Hebreos: Comentário de La Santa Bíblia - Nuevo Testamento, Tomo III. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, Kansas, EUA.
10 A obra The New Strong’s Exhaustive Concordance of The Bible observa que a palavra apostasia, em suas diferentes formas, tem como radical comum o verbo grego aphistemi e ocorre nos textos de At 21.21; 2 Ts 2.3; Hb 3.12 e 1 Tm 4.1. Assim sendo, Strong traduz aphistemi "propriamente, partida (implicando deserção); Apostasia - uma saída, de uma posição anterior”. Por outro lado, o termo grego parapsontas, derivado deparapipto (cair, desviar), que ocorre em Hb 6.6, é tido pelos eruditos como sendo sinônimo de apostasia (veja um estudo completo sobre esses termos no Apêndice, posto no final deste livro).
11 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
12 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
13 CLAPP, Philip S & FRIBERG, Barbara. Analytical Concordance o f the Greek New Testament, volume I, Lexical Focus. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, U.S.A.
14 YOUNGBLOOD, Ronald F; BRUCE. F. F. & HARRISON, R. K. Dicionário Ilustrado da Bíblia. Editora Vida Nova, São Paulo.
15 The Harper Collins Study Bible. Harper Collins Publishers. Londres, Reino Unido.
16 Idem. pp. 589.
17 BARCLAY, William. Hebreos - Comentário al Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.
18 BENSON, Joseph. Hebrews: The New Testament-A Critical, Explanatory and Praticai Notes. Lane & Tippett, Nova York, EUA, 1847.
19 Aqui, mais uma vez, como ocorre por toda essa carta, observa-se um chamado à vigilância frente aos perigos espirituais.
20 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - Comentário Exegético al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
21 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus - comentário esperança. Editora Esperança. 22 CLARKE, Adam. Op.cit. p. 590

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
Aqui eu Aprendi!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Batismo de Jesus

“E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”  Mt 3.17



“O batismo de Jesus marca o início de seu ministério. João Batista estava chamando os ouvintes para um batismo de arrependimento. Jesus, no entanto, não tinha pecados dos quais se arrepender. Mas Ele, graças à sua submissão ao batismo de João Batista, demonstrou sua identificação com a humanidade pecaminosa. A descida do Espírito Santo em forma de pomba e as palavras de aceitação do Pai que acompanharam o batismo representaram a aprovação de Deus do ministério que se seguiria. [...] No batismo de Jesus, Deus o confirmou como seu Filho e encheu-o com seu Espírito (Mt 3.13-17), capacitando-o para sua missão” (Guia Cristão de Leitura da Bíblia. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2013, p.436).

Texto Bíblico: Mateus 3.13-17

Deus confirmou a filiação divina de Jesus por ocasião do seu batismo.

INTRODUÇÃO

Algumas pessoas não conseguem entender o motivo que levou Jesus, sendo o Deus encarnado, a se sujeitar a ser batizado pelo último dos profetas de Israel (Mt 11.13). No entanto, a narrativa de Mateus, apesar de resumida, mostra o que estava por trás desse gesto de Jesus. A história do batismo de Jesus não era para ser apenas mais um relato de batismo de João, o Batista. Ela teve um significado importante: revelar a divindade de Cristo e a confirmação escriturística de sua missão.

Nesta lição, estudaremos a respeito do gesto humilde de Jesus de vir até João para ser batizado. Veremos também os sinais que aconteceram naquele momento e a relação do batismo de João com o batismo cristão.

I. O PROFETA QUE BATIZOU JESUS

1. João, o batista.
Mateus descreve a aparição de João Batista diretamente no deserto. Ele faz uma conexão entre o texto de Mateus 3.3 com Isaías 40.3: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus”. A profecia de Isaías 40.3 teve um significado especial para os exilados da Babilônia. A interpretação teológica do exílio era de que ele ocorreu devido à desobediência do povo e a libertação estava condicionada ao retorno a Deus. Essa interpretação influencia o discurso de João Batista.

João é comparado a Elias pelo seu estilo de vida e ousadia ao desafiar o povo de Israel a se converter a Deus (1Rs 1.17,18-46). Mateus deixa claro que João tinha uma missão especial já prevista no Antigo Testamento: preparar o caminho para o Messias.

2. O batismo de João.
O batismo de João era com água e para arrependimento, um batismo de purificação precedido por uma confissão de pecados. O discurso realizado por João Batista antes do batismo era direto e firme. Uma temática profética semelhante a Moisés (Dt 30.2,10), Oseias (Os 3.5; 6.1), Amós (Am 4.6,8,9), Isaías (Is 9.13), Jeremias (Jr 2.27) e Ezequiel (Ez 14.6). A mensagem de João era de arrependimento para um batismo que realmente simbolizasse a morte do “velho homem”. Se o batismo de João era para o arrependimento e precedido de um discurso duro, por que Jesus vai ao Jordão procurar João para ser batizado? De que teria Ele que se arrepender? Por que ouvir tal discurso? A atitude de João demonstrava que ele não via em Jesus necessidade de arrependimento, mas que tudo foi realizado para se cumprir as Escrituras.

3. João anuncia um batismo superior ao seu.
Antes de batizar Jesus, João anunciou que após ele surgiria alguém com um batismo superior ao seu. João estava se referindo a Jesus, pois Ele batizaria aqueles que cressem com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11).

A missão de Jesus era salvar e purificar os que o aceitam pela fé e o recebem como seu único Salvador, crendo nas palavras do Evangelho.

II. O BATISMO DE JESUS E OS SINAIS DIVINOS

1. Jesus foi batizado para que se cumprissem as Escrituras.
A narrativa de Mateus a respeito de Jesus não menciona a infância dEle. Do seu nascimento salta para a visita a João.

A atitude de João, seu primo, ao recebê-lo demonstra que ele conhecia Jesus e não via nEle necessidade de arrependimento e muito menos de ser batizado.

Mateus é o único evangelista que registra o fato de João, a princípio, ter se recusado a batizar Jesus. Sua recusa é consistente com sua humildade (Mt 3.11). Quando Jesus menciona que é para cumprimento de “toda a justiça”, ele se rende e batiza o Salvador. O verbo cumprir que aparece também em textos de Mateus (Mt 1.22; 2.15; 4.14) significa concordância da vontade de Deus com o que está acontecendo no ministério de Jesus, que fora previamente declarado nas Escrituras.

2. Primeiro sinal: a descida do Espírito de Deus em forma de pomba (Mt 3.16).
Logo após a saída de Jesus das águas os céus se abrem para Ele. A abertura dos céus revela favor divino a pessoa que estava em consonância com Deus (Ez 1.1; At 7.56; Ap 19.11).

O evangelista afirma que ao sair Jesus das águas o Espírito de Deus desceu sobre Ele como uma pomba (Mt 3.16). O Espírito Santo que já estava ativo no nascimento de Jesus (Mt 1.18) continua presente no início de seu ministério terreno.

Jesus é o Filho de Deus que veio ao mundo para proclamar e libertar o oprimido, conforme a leitura que Ele mesmo fez de Isaías 61.1. Este também era o sinal de um novo governo, diferente do governo do Império Romano, em que os menos favorecidos não tinham quem os representasse.

3. Segundo sinal: uma voz dos céus.
Na sequência, Mateus afirma que “e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Mais uma vez Mateus recorre ao Antigo Testamento, fazendo uma alusão ao Salmo 2.7 e Isaías 42.1.

Mateus apresenta Jesus como o servo sofredor de Deus e como o Messias (Is 42.1-4). Ele demonstra que mesmo sendo Filho de Deus, Jesus tinha a humildade de servir, diferente dos governantes romanos. Mateus também apresenta a figura do Messias, que devia batizar com o Espírito e com fogo. A pomba é símbolo de suavidade e mansidão. Isso nos mostra que, dependendo da atitude do ser humano em relação à vontade de Deus, Jesus pode ser a verdadeira benignidade como também a severidade (Rm 11.22).

III. O BATISMO DE JESUS E O BATISMO CRISTÃO

1. O modelo do batismo de João foi adaptado pelo cristianismo.
João Batista não foi o primeiro a praticar o batismo nas águas. Antes dele, os judeus batizavam os prosélitos como símbolo de uma natureza “purificada”. João Batista propagava o batismo do arrependimento, todavia o significado de arrependimento para João não é o mesmo do batismo cristão (At 18.24-26; 19.1-7). O batismo de João era uma preparação para o batismo que Jesus iria instituir depois de sua morte e ressurreição. Jesus é o Cordeiro de Deus, para justificação de todo aquele que crê e depois da sua morte e ressurreição, todos que nEle creem devem ser batizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.20).

Em Mateus, João Batista aparece pregando o “batismo de arrependimento para remissão de pecados”, enquanto Jesus entra com um discurso do Reino: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus”. Para a pessoa participar do batismo, é preciso crer na obra vicária de Cristo para ser justificada somente depois disso vem o batismo (At 2.41). O batismo é um símbolo da justificação já realizada por Jesus Cristo.

2. O batismo é uma ordenança de Cristo e não um sacramento.
Segundo a doutrina católica, as obras são essenciais para a justificação assim como o “sacramento do batismo”. Tais argumentos repetem a mesma defesa dos judeus com relação à circuncisão como meio de justificação. Em Romanos 4.9-15, Paulo questiona tal prática e chama de hipócrita quem se gloria de obras e sinais externos. Paulo afirma que Abraão foi justificado antes da instituição da circuncisão, tornando irrefutável a afirmação de que a circuncisão não era requisito para a justificação.

O batismo cristão é a ordenança de Jesus proferida pouco antes de sua ascensão, mas a justificação se dá mediante a fé no Filho de Deus (Mt 28.19,20). Jesus deu orientações explícitas de que as pessoas convertidas devem ser batizadas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Porém, somos salvos pela fé em Jesus, pela sua graça e não pelo batismo em si. O batismo sem fé nenhum valor tem.

3. O batismo cristão ilustra a morte e ressurreição de Cristo.
O crente, pela fé em Cristo, torna-se justo diante de Deus e o velho homem é com Jesus crucificado, fazendo surgir uma nova criatura (Rm 6.6; 2Co 5.17). O batismo nas águas é um ato público para atender uma ordenança que formaliza, simbolicamente, o que já ocorreu: o sepultamento do velho homem (Cl 2.12). O batismo nas águas é uma bela representação da nova posição do salvo em Cristo, morto para o pecado (debaixo das águas), justificado e reconciliado com Deus (ao sair das águas). Portanto, o batismo cristão é um ato público que simboliza a justificação ocorrida por meio da fé em Cristo.

O batismo nas águas é a ordenança de Jesus, um ritual que simboliza que um pecador justificado está confessando, em público, sua fé em Cristo.

Leia também:  Ordenanças da Igreja 



CONCLUSÃO

Jesus demonstrou sua humildade e obediência, ao que estava predito nas Escrituras, ao se submeter ao batismo de João Batista, mesmo não tendo pecado. O batismo de Jesus foi acompanhado de sinais, comprovando que Ele era o Filho de Deus.



Leia mais sobre:  Batismo - um exemplo a ser seguido


Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 1º Trimestre de 2018 - Título: Seu Reino não terá fim — Vida e obra de Jesus segundo o Evangelho de Mateus - Comentarista: Natalino das Neves


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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Tudo posso naquele que me fortalece

“...tudo posso naquele que me fortalece” Filipenses 4.13


É muito fácil entender mal um versículo assim. 

O lemos e imediatamente pensamos em centenas de coisas que não conseguimos fazer. No mundo físico, por exemplo, pensamos em alguma acrobacia ridícula que exigiria poderes sobre-humanos. Ou pensamos em alguma grande proeza mental que está muito além de nós. Então estas palavras se tornam uma tortura para nós, ao invés de um conforto.

O que o versículo na verdade quer dizer, claro, é que o Senhor nos dará poder para fazer qualquer coisa que Ele queira que façamos. Dentro do círculo da Sua vontade não há impossibilidades.

Pedro sabia deste segredo. Ele sabia que, por si só, não poderia andar sobre as águas. Porém, também sabia que se o Senhor lhe havia dito para fazê-lo, ele conseguiria. Assim que Jesus disse “Venha”, Pedro saiu do barco e caminhou sobre as águas até Ele.

Normalmente uma montanha não vai se lançar ao mar ao meu comando. No entanto, se esta montanha estiver entre mim e o cumprimento da vontade de Deus, então posso dizer “Saia do caminho” e ela o fará.

O ponto central é que “Sua vontade é Sua capacidade”. Portanto, Ele proverá a força para enfrentarmos qualquer desafio. Ele me capacitará para resistir a cada tentação e vencer cada hábito. Ele me fortalecerá para ter uma vida de pensamentos limpos, motivos puros e para sempre fazer aquilo que agrada ao Seu coração.

Se não tenho forças para fazer algo, se me vejo ameaçado por um colapso físico, mental ou emocional, então eu talvez deva questionar-me se por acaso entendi mal Sua vontade e estou seguindo meus próprios desejos. É possível fazer para Deus o que não é de Deus. Tais obras não carregam a promessa do Seu poder.

Por isso é importante saber que estamos seguindo a corrente do Seu plano. Então podemos ter a alegre certeza de que Sua graça irá nos sustentar e capacitar.


por William MacDonald

William MacDonald (07 Jan 1917 - 25 Dez 2007) escreveu mais de 84 obras. Dedicou-se ao ensino bíblico nos últimos 60 anos de sua vida. Ele é um dos escritores menos conhecido mais vendidos no mundo. O seu "Verdadeiro Discipulado" causou enorme impacto a toda uma geração de crentes. O seu Comentário Bíblico do Crente foi traduzido em muitas línguas (Japonês também); em alguns países este comentário existe num volume único. Ele produziu centenas de folhetos, dos quais destacamos "Tenho que te dizer isto", que tem sido amplamente espalhado. Recentemente ele produziu dois CDs evangelísticos, "Nada Acontece Por Acaso" e "A Maior Mentira do Mundo", que têm sido distribuídos aos milhares. O seu livro de meditações diárias, One Day at a Time (Um Dia de Cada Vez), é muito inspirador, consolador e edificante.

Fonte: Chamada  
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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Uma Salvação Grandiosa

Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram” Hb 2.3

Hebreus 2.1-4
“Esta é a primeira de sete passagens em Hebreus onde o autor combina uma urgente exortação com uma solene advertência a fim de mover seus leitores a uma confiança renovada, a uma esperança e fé perseverante em Cristo. Estas sete advertências não são divagações, no entanto se relacionam diretamente com o principal propósito do autor. A íntima conexão entre este parágrafo e a interpretação em 1.5-14 demonstra que a exposição bíblica do autor não era propriamente um fim, mas originou-se de sua preocupação por seus leitores e sua perigosa situação.

O rico vocabulário e os dons do autor como orador são novamente evidentes. A construção grega de 2.1-4 consiste em duas sentenças: uma declaração direta (2.1), seguida por uma longa sentença explicativa (2.2-4), que inclui uma pergunta retórica (‘como escaparemos nós?’) com uma condição (‘se atentarmos para [ou negligenciarmos] uma tão grande salvação’, 2.3a).

A expressão ‘Portanto’ (2.1) liga este parágrafo ao esplendor e à incomparável supremacia do Filho no capítulo 1. Pelo fato de o Filho ser superior aos profetas e aos anjos, se o que Deus ‘nos falou pelo Filho’ (1.2) for negligenciado, seremos muito mais culpáveis: ‘Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas’” (ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. 2ª Edição. RJ: CPAD, 2004, p.1549).

A salvação não é algo dado ao crente compulsoriamente. O cristão é exortado a ser vigilante e não negligente em relação a essa dádiva recebida.


Uma Salvação Grandiosa

Comentário de Hebreus 2.1 -18

No capítulo 1, o autor mostrou a superioridade de Jesus ê aos anjos. Neste capítulo, o autor demonstrará as implicações práticas daquilo que ele afirmara. Os intérpretes destacam que a superioridade de Jesus em relação aos anjos acontece em três aspectos:

1. Nenhum dos anjos podia trazer a nova relação entre irmãos (Hb 2.5-13);

2. Nenhum dos anjos podia livrar os homens do temor da morte (Hb 2.14-16);

3. Nenhum dos anjos podia realizar a obra da expiação pelos pecados (Hb 2.17-18).

“Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas" (v. 1). Aqui, o “portanto" (gr. dia touto) tem o sentido de "acordo com o que acabei de mostrar”. Nesse contexto, “portanto" é usado em referência à superioridade de Jesus sobre os anjos. Uma verdade de tão grande magnitude deveria ter recebido uma maior atenção por parte dos leitores. Eles deveriam ter atendido as verdades ensinadas com maior diligência. O termo grego prosechein, traduzido aqui como "atentar", tem o sentido de “prestar atenção a, atender, dar ouvidos".1  O termo é usado no sentido de dar uma resposta positiva ou negativa a uma mensagem recebida. É usado em Atos 8.6 para afirmar que as pessoas "atendiam” unânimes as palavras pregadas por Filipe. Por outro lado, em Tito 1.13,14, é usado para exortar os crentes a “não dar ouvidos” às fábulas judaicas. Em ambos os casos, a participação do ouvinte é requerida. Pedro afirma que seus leitores faziam bem em “atenderem” a palavra profética (2 Pe 1.19). Esse mesmo termo é usado por Lucas para narrar a conversão de Lídia (At 16.14). “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14 - ARA). Enquanto Paulo falava acerca do Reino de Deus, Lídia escutava a Palavra de Deus, e o Senhor abriu-lhe o coração para atentar (prosechein) àquilo que o apóstolo dizia.2

As Escrituras exortam o cristão a ser vigilante e batalhar pela fé que uma vez lhe foi dada (Jd 3). O autor não queria que os crentes aos quais ele escrevia ficassem desviados da fé. A palavra "desviar” (gr. pararreô) era usada em referência a um rio que corria fora do seu leito. Podia ser usada também em referência a uma pessoa que perdia a memória ou, então, a um navio que estava à deriva.3  Franz Delitzsch (1813-1890) destaca que está presente o sentido de obter ou encontrar a si mesmo em um estado de fluxo ou de passagem, isto é, em referência a um objeto que requer muita atenção; perder a posse de qualquer coisa por não conseguir segurar.4  Essas observações fazem-nos ver que a apostasia — um ensino que o autor de Hebreus voltará a falar mais adiante — é uma realidade possível e real. Se decair da fé ou se desviar não fosse uma possibilidade, essas exortações perderiam o sentido.

“Porque, se a palavra falada pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu a justa retribuição” (v. 2). Como já havia assinalado no versículo anterior, o autor refere-se, aqui, à Lei mosaica entregue no Sinai. George Wesley Buchanan destaca que havia uma tradição judaica antiga na qual se afirmava que a Lei fora entregue pelos anjos (Ant. XV. 136; Gl 3.19; Atos 7.53; Targ. Dt 33.2).5  Por haver sido mediada por anjos, a Lei era vista e observada meticulosamente pelos judeus. A conclusão a que o autor quer chegar é simples: ora, se a Lei, que fora entregue por anjos, merecia tanta atenção, então não merecia atenção maior ainda a palavra de Deus, que fora entregue por seu próprio Filho, o qual é infinitamente superior aos anjos? Se a palavra entregue por anjos provocou punição para quem a transgrediu, o que poderá acontecer com quem quebra a palavra falada pelo Filho?

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram” (v. 3). Valendo-se de uma pergunta retórica, o autor indaga a seus leitores se haveria alguma chance de escape para quem fosse negligente e não atentasse para essa tão grande salvação. A resposta, evidentemente, é que não haveria chance nenhuma.

A palavra grega amelêsantes, traduzida como “atentar”, “negligenciar”, é um particípio que ocorre quatro vezes no Novo Testamento grego (Mt 22.5; 1 Tm 4.14; Hb 2.3; 8.9). Em Mateus, é usado no sentido de “não dar atenção”; em 1 Tm 4.14, é usado para exortar Timóteo a não "negligenciar” o dom de Deus; em Hebreus 8.9, é usado para dizer que Deus não “atentou” para os desobedientes.6  A salvação do cristão está condicionada à sua permanência em Cristo. Alguns creem que a salvação é dada por decreto. Nesse sentido, as pessoas eleitas serão salvas sem importar muito o que fazem ou deixam de fazer. No entanto, Richard Taylor destaca:

"A Bíblia mostra que a prática do pecado e o Filho de Deus são totalmente incompatíveis; e que a apostasia é uma possibilidade, ainda que não seja normal nem o que se espera na experiência cristã. O Novo Testamento sublinha que a fé evangélica é como um tempo presente, uma atitude contínua de confiança e obediência, ‘aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida’ (Jo 3.36; Tg 2.14-26)".7

"Testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito Santo, distribuídos por sua vontade?" (v. 4). O escritor F. Dattier destaca:

“A insistência sobre os prodígios, Hb possui em comum com o 4° Evangelho onde tais fatos formam argumentos essenciais em abono da legitimidade de Jesus de Nazaré: Jo 1.14,51 ; 2.11,23; 3.2; 5.17-20,36; 6.14,26; 7.21,31; 9.3,16; 10.32,37,41; 11.47; 12.18,37; 14.10; 15.24. Com a morte de Jesus, os milagres não desapareceram; os discípulos fariam maiores ainda (Jo 14.12); maiores se não em qualidade, pelo menos em quantidade, como se vê nos Atos dos Apóstolos e na variedade imensa de carismas descritos em Rm 12 e 1 Cor 12." 8

A Igreja Primitiva, formada por crentes tanto da primeira como da segunda geração, estavam familiarizados com os carismas do Espírito. Para o autor, a Salvação não ocorreu apenas no plano subjetivo e teórico, mas também no objetivo e prático. O Espírito Santo, através dos discípulos, deu testemunho dessa salvação. Os termos gregos: semeiois (sinais), terasin (maravilhas) e dynamesin (poder, prodígios, milagres) são frequentemente usados nos Atos dos apóstolos (At 4.30,33; 5.12; 14.3,8-10). No Velho Testamento, o Espírito vinha sobre algumas pessoas especiais: o rei, o legislador, o profeta e o sacerdote. Todavia, na Nova Aliança, Ele foi derramado sobre toda a carne (At 2.17). Os crentes Hebreus possuíam consciência desses fatos, mas, mesmo assim, davam sinais de esquecimento.

Como de costume, o autor mais uma vez recorre a uma citação de um salmo (8.4-6) de natureza messiânica para validar sua argumentação. No judaísmo, esse salmo era um cântico que celebrava a criação, a tradição cristã; no entanto, devido à sua citação na carta aos Hebreus, associou-o à redenção. "Em vários períodos, o salmo foi usado para expressar o tema da imago dei no sentido de que a dignidade da humanidade é concedida e, em seguida, restaurada pela salvação/redenção”.9

C. S. Keener destaca que era uma crença do judaísmo antigo a de que Deus sujeitaria a seu povo o governo do mundo vindouro.10  O judaísmo dos dias neotestamentários alimentava essa esperança. “Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos” (v. 5). O fato em destaque pelo autor é que o mundo será, com efeito, submetido ao governo não angélico, mas humano. O autor afirma essa crença, porém destacando que essa promessa teve seu fiel cumprimento no Messias, que era divino e humano. O autor passa a citar o Salmo 8.

"Mas, em certo lugar, testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites?" (v. 6). Valendo-se da expressão “em certo lugar”, o autor não demonstra imprecisão na sua citação, mas, sim, o uso do método hebraico de interpretação conhecido como gezerah shavar, muito usado pelos escribas para unir duas porções das Escrituras.

“Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos, de glória e de honra o coroaste e o constituíste sobre as obras de tuas mãos" (v. 7). Essa citação não é feita para depreciar o homem; pelo contrário, é usada para mostrar sua grandeza.11  O autor avança para o desfecho do seu comentário. "Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés" (v. 8). F. F. Bruce observa que “Quando o homem falha no cumprimento de seu propósito divino (como em alguma medida, todos o fizeram na época do Antigo Testamento), Deus levanta outro para que tome o seu lugar. Mas quem poderia tomar o lugar de Adão? Somente um que foi capaz de desfazer os efeitos da queda de Adão e, portanto, iniciar uma nova ordem do mundo”.12

“Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (v. 9). A palavra grega brachy, traduzida como “menor”, é usada aqui em relação ao tempo e significa temporariamente. Portanto, o texto afirma que, devido à sua humilhação, Jesus temporariamente foi feito menor do que os anjos, e não que Ele tornou-se menos digno do que os seres angélicos.13  Alguns autores interpretam esse texto no sentido de que a glória precedeu o sofrimento. Nesse aspecto, Jesus teria uma glorificação antecipada. Mas, como observa F. F. Bruce, essa não é a leitura natural do texto. O autor de Hebreus põe a glorificação como um evento que seguiu a humilhação de Cristo. Pela primeira vez, o autor cita aqui o nome "Jesus", o que é uma clara demonstração de sua humanização. "O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). O autor usa o termo grego "graça” (gr. Xaris) pela primeira vez, e o seu sentido é de uma salvação para todos, universal e ilimitada.14  Ele sacrificou-se por todos e, como resultado de sua paixão e exaltação, sua morte é extensiva a todos os homens.15  Adam Clarke (1760-1832), renomado teólogo britânico, vê aqui um paralelo com o cálice da salvação a qual o Senhor Jesus referiu-se em Mateus 26.39:

"Meu Pai, se és possível, passa de mim este cálice. Mas, sem bebê-lo, a salvação haveria sido impossível; portanto, com júbilo o bebeu em lugar de cada alma humana, fazendo desta maneira sacrifício por todo o pecado da totalidade do mundo; e isto Ele fez por graça, misericórdia ou infinita bondade de Deus”.16

"Porque convinha que aquele, para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo muitos filhos à glória, consagrasse, pelas aflições, o Príncipe da salvação deles" (v. 10). Esse versículo é uma referência à missão salvífica do Filho e faz um paralelo com 2 Coríntios 5.19. O escritor Neil R. Lightfoot observa que alguns comentaristas dizem que o texto quer dizer simplesmente que, através da sua morte, Jesus completou sua obra na terra e que, por isso, teria Ele superado todas as suas limitações. Todavia, Lightfoot destaca que "a palavra aperfeiçoar (traduzida aqui como consagrar), que, com seus cognatos, é característica da epístola, exige mais do que isso. No geral, ela significa concretização ou inteireza; completar algo, pôr em efeito; acabar, por exemplo, uma torre ou obra de arte. Mas o significado aqui é determinado pela Septuaginta, que usa regularmente o termo no Pentateuco para referir-se à consagração dos sacerdotes (Êx 29.9, 29.33,35, etc.). Da mesma forma que, no Velho Testamento, os sacerdotes eram aperfeiçoados ou consagrados por vários rituais, também Cristo, no Novo, foi aperfeiçoado, consagrado ou qualificado. A ideia é que, em separado do sofrimento, Cristo não poderia ter-se tornado um Líder inteiramente eficaz, perfeito, do seu povo".17

"Porque, assim o que santifica com o os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos” (v. 11). Aqui, o autor mostra a fonte de santificação do crente: Cristo. É o sangue de Cristo que nos purifica de todo pecado. Posteriormente, ele vai afirmar que, sem a santificação, ninguém verá o Senhor.

“Dizendo: Anunciarei o teu nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (v. 12). O autor novamente recorre a textos messiânicos para corroborar sua argumentação. No primeiro texto, ele usa o Salmo 22.22. Os evangelistas relacionaram esse salmo com os eventos da crucificação (Mc 15.34). A identificação de Cristo com a raça humana está claramente demonstrada aqui na argumentação do autor de Hebreus. Jesus identifica-se com seus irmãos.

“E outra vez: Porei nele a minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim e aos filhos que Deus me deu” (v. 13). O versículo 13 é uma citação de Isaías 8.17. No contexto do livro de Isaías, o profeta demonstra confiança em Deus, mesmo o povo tendo perdido as esperanças. É exatamente essa mesma confiança que o Filho de Deus demonstra. Por outro lado, o versículo 14 é usado pelo autor para, de forma contundente, demonstrar a plena natureza humana de Cristo.

“E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (v. 14). Fritz Laubach destaca:

"Cristo se tornou realmente humano. O Novo Testamento enfatiza: O Filho de Deus não permaneceu na glória eterna, mas de forma misteriosa unificou-se plenamente com nossa natureza humana. Cristo assumiu a nossa natureza, para que nós pudéssemos participar de sua natureza divina (2 Pe 1.4)”.18

A palavra "aniquilar" não tem o sentido de "destruir” no original grego, mas, sim, o de “tornar inoperante”, “anular”, "fazer como se não mais existisse”.19  Através da morte e ressurreição de Jesus, Satanás foi destronado (cf. Cl 2.15). A consequência imediata da vitória de Jesus está demonstrada no versículo 15.

“E livrasse todos os que, com medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão" (v. 15). O cristão não deve mais temer a morte, embora seja ainda necessário passar por ela. Não há mais insegurança e incerteza, já que Jesus, através de sua morte e ressurreição, destronou o poder que ela detinha (1 Co 15.55; 2 Tm 1.10). Cirilo de Alexandria (378-444 d.C.), em seu comentário de Hebreus, escreveu: “Existindo essencialmente com vida, o Logos Unigénito de Deus uniu-se Ele mesmo à carne terrena e mortal, para que a morte, que perseguia o homem como um animal feroz, soltasse a sua presa”.20

“Porque, na verdade, ele não tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão" (v. 16). A morte de Jesus foi pelos homens, e não pelos anjos caídos.

“Pelo que convinha que, em tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo" (v. 17). A identificação de Jesus com a humanidade é feita pelo autor através da expressão “em tudo, fosse semelhante aos irmãos”. Para salvar os homens, era necessário Jesus tornar-se como eles. Evidentemente, essas palavras do autor não devem ser tomadas em seu sentido literal, pois Jesus não cometeu pecados como os demais homens. Aqui, pela primeira vez nessa carta, o autor usa o termo “sumo sacerdote" em referência à pessoa de Jesus. Trata-se de uma preparação para o que ele tenciona dizer daqui para frente. Ao comentar esse texto, João Crisóstomo (347-407 d.C.) escreveu:

“Não há nos honrado somente com a fraternidade, senão também de diversas maneiras; assim quis se fazer sumo sacerdote ante o Pai, pois acrescenta: 'A fim ser misericordioso e sumo sacerdote fiel nas coisas que se referem a Deus’. Por isso, afirma — assumiu nossa carne não somente por benevolência, senão para ter misericórdia de nós. Certamente, não existe outra causa da redenção; essa somente! Com efeito, nos vê abatidos na terra, perdidos, tiranizados pela morte, e tem misericórdia”21.

“Porque, naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (v. 18). Aqui, o autor mostra Jesus como Sumo Sacerdote. Muito mais do que os sacerdotes no Antigo Testamento — que representavam os homens diante de Deus, fazendo intercessão e expiação por seus pecados — Jesus pode socorrer os crentes. Ele conhece nossas vidas e natureza e, por isso, está pronto a interceder por nós.


SUBSÍDIO TEOLÓGICO
Jesus, superior aos anjos em sua missão redentora (Hb 2.5-18)
Esta seção dá continuidade ao pensamento iniciado em 1.5-14 a respeito da superioridade do Filho em relação aos anjos, porém sob uma perspectiva diferente. No capítulo 1 a ênfase estava na divindade da natureza do Filho; aqui o enfoque está em sua humanidade e no sofrimento como componentes necessários de sua missão redentora. Os anjos, por um lado, são servos; sua missão para o homem como ‘espíritos ministradores’ é ‘servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação’ (1.14). O Filho, por outro lado, é o Salvador; sua missão para o homem como ‘o Príncipe da salvação deles’ (2.10) é ‘salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus’ (7.25). Entretanto, como Salvador, a missão redentora do Filho envolvia tanto a humilhação como a glória.
Como o homem perfeito, Jesus se tornou o verdadeiro representante da raça humana e o cumprimento absoluto do Salmos 8. Somente Ele poderia cumprir ‘o propósito declarado do Criador quando trouxe a raça humana à existência’. Mas, assim fazendo, Ele teve de se identificar plenamente com a condição humana, incluindo o sofrimento humano (cf. Hb 4.15,16; 5.6), a fim de ‘abrir o caminho da salvação para a humanidade e agir eficazmente como o Sumo Sacerdote de seu povo na presença de Deus’. Isto significa que Ele não é apenas aquEle em quem se cumpre a soberania destinada à humanidade, mas também aquEle que, por causa do pecado humano, deve concretizar esta soberania por meio do sofrimento e da morte. Portanto, o Filho, que já foi apresentado como superior aos anjos, teve de ser feito ‘um pouco menor do que os anjos’ (2.7a) antes de poder ser ‘coroado de glória e de honra’ (2.7b) como Senhor sobre todas as coisas” (ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. 2 Edição. RJ: CPAD, 2004, pp.1551,52).


Salvação
“1. Sõteria (σωτηρία) denota ‘libertação, preservação, salvação’. O termo ‘salvação’ é usado no Novo Testamento para se referir a: (a) o livramento material e temporal de perigo e apreensão: (1) nacional (Lc 1.69,71; At 7.25, ‘liberdade’); (2) pessoal, como do mar (At 27.34, ‘saúde’); da prisão (Fp 1.19); do dilúvio (Hb 11.7); (b) o livramento espiritual e eterno concedido imediatamente por Deus aos que aceitam as condições estabelecidas por Ele referentes ao arrependimento e fé no Senhor Jesus, somente em quem será obtido (At 4.12), e sob confissão dEle como Senhor (Rm 10.10); para este propósito o Evangelho é o instrumento de salvação (Rm 1.16; Ef 1.13 [...])”. Para conhecer mais leia Dicionário Vine, CPAD, p.967.

“[...] Pela graça de Deus, Jesus provou a morte por todos os homens (Hb 2.9). Três verdades importantes estão sucintamente incorporadas aqui:

1. A morte de Jesus na cruz, para realizar a salvação, foi um ato da graça de Deus.

2. Sua morte foi em favor de (byper) cada pecador; um claro ensino de Hebreus é que sua morte foi uma expiação substitutiva pelo nosso pecado (cf. 5.1; 7.27).

3. Sua morte não foi uma ‘expiação limitada’ — isto é, para algumas pessoas seletas, como alguns reivindicam — mas Ele provou temporariamente a morte por todos os homens. Sua morte é de proveito para todo aquele que por fé se submete a Ele como Senhor e Cristo.

Para os judeus daqueles dias, a ideia de um Messias em sofrimento era detestável e a reivindicação cristã de que isto convinha, deveria ser vista contra este panorama. Qualquer que seja a razão para a cruz, não há dúvida alguma de que tais fatos revelam a natureza de Deus. É neste sentido que ‘convinha’ que as coisas ocorressem como de fato ocorreram” (ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento. 2ª Edição. RJ: CPAD, 2004, p.1553).

Notas
1 BAUER, Walter. A Greek-English Lexicon o f the New Testament and Other Early Christian Literature. The University of Chicago Press. EUA, 1979.
2 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Doubleday & Company, INC. Garden City, Nova York, EUA, 1972.
3 RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Vida Nova.
4 DELITZSCH, Franz. Commentary on the Epistle to the Hebrews. Nova York, 1857.
5 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Op.cit. pp.24,25.
6 HUGO, M. Petter. Concordancia Greco-Espanola del Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Barcelona, Espafta.
7 TAYLOR, Richards. Diccionario Teológico Beacon. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, EUA, 1984. Taylor sublinha que a doutrina da segurança eterna, "uma vez salvo, salvo para sempre”, originou-se com João Calvino (Aí Institutas 3.21.5). Se a salvação é por decreto, como dizia Calvino, então os eleitos serão salvos sem importar o que façam ou deixem de fazer. Alguns textos, fora do contexto, são usados como prova: em João 10.27-29, o contexto deixa claro que é aplicado às ovelhas, que, de forma contínua e habitual, seguem o Senhor e são por Ele guardadas. Evidentemente, essa passagem não se aplica aos que, por vontade própria, desviaram-se; Rm 8.35-39 - nesse texto, é dito que nenhuma “criatura” pode nos separar do amor de Deus. Evidentemente que Paulo não estava referindo-se ao pecado, que a Escritura claramente declara que tem o poder de separar o homem de Deus (Is 59.1-2); Filipenses 1.6 - há dezenas de passagens que esclarecem o sentido dessas escrituras: (Ez 18.24; Mt 18.21-35; Lc 8.13; 12.42-47; Jo 15.2, 6; At 1.25; Rm 11.20-22; 1 Co 8.10-11; 9.27; 10.12; G1 5.1, 4; Ef 5.5-7; 1 Tm 4.1; Hb 6.4-6; 10.26-29; Tg 1.14-16; 2 Pe 2.18-22; 1 Jn 2.4; 3.8-9; 2 Jo 8-9; Jd 4-6; Ap 3.11; 218; 22.19).
8 DATTLER, F. A Carta aos Hebreus. Edições Paulinas, São Paulo, 1980.
9 WALTKE, Bruce K. Os Salmos Como Adoração Cristã - um comentário histórico. Shedd Publicações, São Paulo.
10 KEENER, C. S. Hebreos - Comentário dei Contexto Cultural de la Bíblia. Editora Mundo Hispano, Texas, USA.
11 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - Commentario Exegetico ao Texto Griego dei Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Madrid, Espana.
12 BRUCE, F.F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan. Usa.
13 BOYD, Ricardo Garrett. Hebreos, Santiago, 1 y 2 Pedro, Judas - comentário bíblico mundo hispano. Editorial CLIE. El Paso, Texas, USA.
14 O escritor John MacArthur, em seu comentário de Hebreus, força o texto a dizer o que ele evidentemente não está dizendo. Ao comentar o versículo 9, onde se refere à morte de Cristo, ele diz que esse sacrifício foi somente "por todos os que creem”. Com isso, ele quer dizer “todos os eleitos". Continuando, diz: “A morte de Cristo é aplicada eficazmente àqueles que vêm a Deus, de forma arrependida e com fé, pedindo a graça da salvação e o perdão dos pecados” (MacArthur, John. Hebreus - Cristo: Sacrifício perfeito, perfeito sacerdote. Editora Cultura Cristã).
MacArthur acredita que a salvação é limitada, alcançando somente aqueles que são predestinados a serem salvos. Ninguém mais, mesmo se quisesse, não poderia ser salvo porque já estaria decretado a sua condenação desde a eternidade! Deus não amou a todos, mas somente àqueles a quem Ele escolheu, o que contraria as palavras do Evangelho (Jo 3.16). Ao contrário do que diz MacArthur, o Novo Testamento afirma que é, sim, a vontade de Deus salvar a todos o que vierem a Cristo arrependidos e com fé (Jo 1.12; 1 Tm 2.4). É lógico que o texto de Hebreus 2.9 não está dizendo que Cristo provou a morte somente pelos "que creem", isto é, os eleitos, como afirma MacArthur, mas por "todos” (gr. pantos), ou seja, todos os homens, numa clara referência à humanidade.
A expressão "que creem” é um artifício criado e acrescentado ao texto. Não faz parte da redação original. Ao dizer que a morte de Cristo é aplicada eficazmente aos que vêm a Deus, apenas perpetua um artifício criado na teologia pós-reforma para dizer que a expiação é limitada e a graça é irresistível. Falta, portanto, responder: Se as pessoas não podem resistir à graça de Deus porque elas foram salvas por um decreto de Deus ainda na eternidade, então para que serve a morte de Cristo na cruz? Essas pessoas não estariam salvas da mesma forma desde a eternidade? Essa é uma aporia insuperável quando se tenta forçar a teologia bíblica se ajustar a esse tipo de raciocínio.
15 Em seu comentário de Hebreus, Stuart Olyott, ao comentar Hebreus 2.9, observa que o autor dessa carta, quando diz que Jesus morreu por todo homem, "não é possível que esteja dizendo que Ele [Jesus] tenha morrido por cada indivíduo sobre a face da terra. Isso contraria o ensino claro da Escritura em outros lugares, significando que os pecados de todas as pessoas já foram expiados, resultando na salvação de cada ser humano” (OLYOTT, Stuart. A Carta aos Hebreus Bem Explicadinha. Editora Cultura Cristã, pp. 26,27). Essas palavras de Olyott evidentemente não refletem a mensagem do Evangelho, mas apenas uma tradição teológica pós-reforma. Não há nada no Novo Testamento que diga que a salvação seja apenas para alguns. O testemunho bíblico é que a salvação é para todos. A graça de Deus é para todos, e a expiação é universal (Tt 2.11; Lc 10.19; Jo 5.24; 3.36). Limitar a salvação a uma meia dúzia de eleitos, como quer Elyott, pelo simples fato de que uma expiação ilimitada implicaria necessariamente em um universalismo, é um argumento fraco e sem contexto bíblico. A expiação de Cristo proveu a salvação para todos os homens, mas isso não significa que todos serão salvos, pelo simples fato de que nem todos aceitarão ou crerão na mensagem do evangelho. E não crerão, não pelo fato de já estarem predestinados para isso, mas, sim, pela incredulidade e dureza de seus corações (At 7.51).
16 (1 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de la Santa Bíblia, tomo III - Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, Kansas, USA.
17 LIGHTFOOT, Neil R. Hebreus - Comentário Vida Cristã, Op.cit.
18 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus - Comentário Esperança. Editora Esperança.
19 KITTEL, Gherard. Theological Dictionary oj the New Testament. Eerdmans, EUA.
20 ALEXANDRIA, Cirilo. Fragmentos a la Carta a los Hebreosde San Pablo. La Biblia Comentada por Los Padres de La Iglesia.
21 CRISÓSTOMO, Juan. Sobre la Carta a los Hebreos - La Biblia Comentada por Los Padres de La Iglesia. Editora Ciudad Nueva.

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
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